E ali estava ela... A minha velhinha preferida! A minha avó sempre quis esta casa com alpendre e baloiço! Tanto quis que o meu avó não a conseguiu contrariar, afinal ela era de ideias fortes.
Para quê quis uma casa assim? Para ao final da tarde, poder sentar-se na sua cadeirinha, descansar e encantar-nos com as histórias que contava e criava naqueles momentos exactos.
Nós ficávamos por ali como que absorvidos por todas as palavras...
Porém a idade foi passando, as histórias começaram a ser mais pequeninas e com mais pausas... A memória não deixava a criatividade e a recordação ganhar forma nas histórias da minha avó...
Ouvíamos os seus suspiros e percebíamos que tinha entrado em, mais uma, viagem mental!
O meu avô invadia o alpendre nesses momentos... Aproveitando, sempre, para nos relembrar a mulher lutadora e forte que a avó era... A mulher frágil mas forte, encantadora mas atrapalhada e doce mas azeda que ela sempre tinha sido. Aproveitava esses minutinhos para nos relembrar sempre que ela era o pilar da nossa pequenina família... (permitam-me esclarecer que pequenina por opção dos meus avós e relativamente pequenina por opção dos meus pais!) . Relembrava-nos das risadas que ela dava, das lágrimas por cada derrota e do abraço para qualquer conforto!
O meu avó percebendo que a vovó estava a regressar, dava-lhe um beijo na testa e deixava desfrutar dos seus momentos de histórias.
A vovó voltava porém sabíamos que era por pequeníssimos instantes... Começou por terminar as histórias de forma apressada e, agora, já nem acabava as histórias.
Deixou de nos reconhecer... Deixou de se lembrar... A minha velhinha preferida tinha se esquecido de que eu era o seu menino preferido, o seu menino especial... o menino que, ainda, não sabia sorrir mas que, naturalmente, lhe deu um sorriso voluntário no dia em que nasceu.
A vovó sempre gostou de contar histórias, de escrever histórias e de nos alimentar o amor pelas letras...
Agora tudo o que tenho dela, são essas letras mesmo... Pois ela já não se recorda de nada apenas do avô... o avô que ganhou paciência... o avô que, hoje, está ali a um canto a chorar... Hoje ela escreveu a última linha do capítulo final das imensas histórias.... Teve, ainda, tempo para dizer ao avô que sempre o amou e que disso nunca se havia esquecido "não há muitas histórias como as nossas, pois não?"... Despediu-se do papá e da mamã... e disse-me que eu seria, sempre, o seu menino especial...
Não compreendi tudo, mas sei que se despediu de mim...
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